S.O.P.A., P.I.P.A e o MMA

S.O.P.A., P.I.P.A e o MMA.

Por: Ademir Junior, vulgo Taz

 Sábado, 10 horas da noite. Mais um final de semana de UFC, e como sempre a cena se repete: Minha namorada pronta, linda e perfumada, enquanto o bonitão aqui esta em frente do monitor do computador, de bermudão, discutindo sobre os possíveis resultados do evento com o pessoal da redação aqui do site, de chinelo de dedo e já aquecendo a churrasqueira. É sagrado. Muito mais comum do que ir aos domingos na igreja, é esperar ansioso o UFC aos sábados. Quer me achar no horário do evento ao vivo? É só ir ao quintal de casa a noite. No final de semana que temos MMA, não saímos, não vamos a restaurantes ou baladas, ao invés disso, convidamos amigos e casais em comum para assistirmos o evento em um churrasco animado na beira da piscina. Cerveja gelada, carne à vontade, pãozinho com vinagrete, violão no intervalo de uma luta e outra e ok, eu confesso, como todo bom gordinho exijo uma boa e suculenta sobremesa (que na maioria das vezes, eu mesmo preparo mais cedo). Só que isso tudo se tornaria inviável se a minha situação econômica não me permitisse pagar a assinatura da tv a cabo, e mais precisamente, o canal que transmite os eventos ao vivo. A Globo pode até estar tendo uma excelente iniciativa ao transmitir alguns main events de UFC´s que envolvem brasileiros, mais pra quem realmente ama o esporte, isso é pouco. O cara quando é apaixonado, fanático por mma, ele quer mais. Muito mais. É quase como uma droga, queremos mais e mais doses, cada vez mais fortes, mais intensas e consequentemente mais tempo em frente a tv. Só posso agradecer por hoje ter o privilégio de ter um canal exclusivo para lutas para saciar o meu vicio, mais acreditem em mim, por muito tempo isso não foi assim.

Quando me mudei para Franca aos 17 anos para fazer faculdade, o acesso a eventos de MMA no Brasil era quase nulo; As emissoras de tv aberta ignoravam a existência do esporte e o polo do mercado do MMA era no Japão e não nos EUA. Uma pena. A “Grande massa” perdeu os anos áureos do esporte. Não sendo saudosista, ou querendo comparar o MMA atual com aquele esporte amado pelos amiguinhos de olhos fechados, mais o glamour do show apresentado pelos nipônicos é incomparável a qualquer espetáculo terrestre. Luzes, explosões, gritos enlouquecidos de uma announcer que não se preocupava com a dicção, mais sim, com a emoção de anunciar o nome dos samurais dos dias atuais, lutadores de nome consagrados, bolsas exorbitantes, história, paixão, BUSHIDO. Um ringue grande, de lona branca. Lutas que beiravam a perfeição, algumas por serem técnicas demais, e outras simplesmente por ser vorazes ao ponto de eu quase socar o monitor do meu computador. Isso mesmo, o monitor do meu computador.

Se hoje sou um aficionado por mma, e modéstia parte, bom entendedor do assunto, eu devo quase tudo a internet. Nas madrugadas, entre um livro e outro de anatomia, eu parava para caçar um link de algum provedor japonês para acompanhar o evento ao vivo que estava rolando, e confesso a emoção era diferente. Os “lag´s” (pequenos delays de tempo entre transmissão, áudio, e imagem) faziam com que tudo ficasse com uma cara de slowmotion. Emoção a flor da pele, para um adolescente que estava apenas começando a engatinhar no mundo do antigo vale-tudo. E como todo universitário que conhece uma coisa fantástica e inovadora, queria repassar aos meus amigos um pouco do que estava acontecendo no mundo das artes marciais, assim acabei quase que naturalmente me tornando o porta voz do esporte no meu circulo de amizades, divulgando, promovendo e angariando cada vez mais fãs para o esporte que mais cresce no planeta.

E tudo isso graças a liberdade de expressão, e divulgação de informações na internet. Um direito que esta para ser cortado para as próximas gerações caso os projetos de lei norte americanos P.I.P.A. e S.O.P.A. sejam aprovados. Esse projeto, alias, fere não somente o direito de divulgar e transmitir informações, como também o direito de expressar opiniões sem o consentimento dos donos dos direitos autorais. Esse portal, por exemplo, correria um sério risco de desaparecer. Alias não só ele, todo site que citasse o material da Zuffa (ou de qualquer outro evento de MMA que exigisse uma compra de direitos para exposição), estaria fadado ao fechamento. Apenas reproduções autorizadas seriam transmitidas, ou seja, os famosos Hl´s (Melhores momentos) montados pelos fãs, também deixariam as paginas do youtube. Praticamente 80% do conteúdo de pesquisa da internet desapareceriam da noite para o dia, inclusive matérias de suma importância para o MMA. Sou totalmente contra a pirataria, mais a busca de informações sem um fim lucrativo por trás não pode ser considerado crime. Imagine, nunca vou poder acessar os sites de luta para mostrar para os meus filhos os vídeos do imperador russo Fedor Emelianenko , e sua supremacia histórica correria o risco de ser perdida nesse embrulho todo. Querem retroceder a internet a época da discagem dial-up, quando demorávamos anos para abrir uma foto, e querem cessar o bem maior da população, o conhecimento. E engana-se você que pensa que esse ato vai ferir apenas os norte-americanos. A maioria de streams e links para assistir eventos ao vivo pela internet seriam caçados e seus responsáveis provavelmente seriam presos, deixando apenas a opção do canal de tv a cabo (que muito provavelmente subiria absurdamente o preço da sua assinatura) ou o bom e velho costume americano do PPV (algo como, pague para ver), que também teria seus preços alterados.

O que eu não consigo entender é o porquê de organizações como o UFC e a Zuffa, se declararem abertamente a favor desse projeto absurdo, sendo que os mais prejudicados com isso seriam eles mesmos. Sim, o preço do PPV subiria, no começo eles lucrariam, mais até quando isso é importante? No momento atual, mais vale ganhar milhões de dólares ou milhões de fãs? Com o crescimento exponencial de fãs do UFC, a marca deveria pensar em expandir mais e mais o seu território, atingindo todas as classes sociais e não ficar apenas focada nos mais favorecidos economicamente. Aqui no Brasil, ainda temos a opção de curtir o evento em televisão aberta, nos E.U.A. a FOX começou a transmitir os eventos, ótimo. Mais e o resto do mundo? E o Adolescente que esta no Chile, se formando para odontologia, que quer mostrar para os seus amigos o quanto ele esta fascinado pelo MMA, e não consegue porque os burocratas fecharam os sites e secaram toda a fonte de informação que ele poderia passar a fãs em potencial da organização? E esses milhares e milhões de fãs em potencial que o UFC poderia, pode e vão perder? Melhor lucrar milhões de poucos ou bilhões de muitos e ainda cravar seu nome na história como o esporte mais popular do mundo? A caminhada esta ai pra ser percorrida, mais uma coisa eu garanto, caso essa lei volte a ser questionada, e o pior, caso a mesma seja aprovada, estaremos entrando em uma terceira guerra mundial. Uma guerra cibernética aonde os mais prejudicados serão aqueles que não tiveram a oportunidade que eu tive de ter as informações livremente abertas na internet. Infelizmente o mundo do MMA não será mais o mesmo, e cenas como o suplex de Randleman no Fedor, a chave de perna de Ryo Chonan no Anderson Silva, o triângulo de Maia sobre Sonnen, serão apenas histórias contadas no pé da cama antes de dormir para crianças que nunca vão entender a magnitude desses momentos para o esporte.

É, Sábado 11 horas da noite, vai começar o UFC RIO 2 em poucos minutos. Eu vou lá que o pessoal já chegou e a churrasqueira já está no ponto. Espero que tenham uma ideia do que eu quis passar pra todos nesse texto, que é mais um desabafo e um alerta do que propriamente uma crônica. Hoje eu escolhi ter esse estilo de vida, optei pelo MMA ao invés da balada no sábado à noite. Mais e se quando eu era um adolescente, no meu apartamento em Franca, ao invés de assistir o MMA por links “alternativos” eu estivesse aproveitando em micaretas? Se ao invés de ter o mito Wanderlei Silva como exemplo, eu tivesse apenas jogadores de futebol para me espelhar? Espero que o Sr. Dana Withe junto com os irmãos Fertita tenham essa consciência, e parem de apoiar esse movimento que fere o direito do cidadão em ter a sua liberdade de informação. Se eu não tivesse me informado sobre o MMA na internet, provavelmente esse texto não estaria nem mesmo escrito. Olha só! O Thiago trouxe cerveja gelada! Vou lá pessoal, parafraseando um professor da faculdade, um beijo pra quem é de beijo, e um abraço pra quem é de abraço. Oss.

 

Notas de rodapé:

 

1 – Sou totalmente contra a pirataria, mais já que não podemos combate-la eficientemente sem gerar um caos, e principalmente, sem ferir os direitos básicos dos cidadãos, que pelo menos lucre com isso, que o UFC seja um pioneiro e pare com esse apoio a esses projetos que são absurdos, tiranos e pode culminar com o desemprego de muita gente, inclusive eu.

 

2 – Parabéns aos atletas que representaram a nossa bandeira no UFC Rio 2, essas notas de rodapé eu estou escrevendo de ressaca, no domingo pós evento, e fiquei emocionado aqui com as lutas, cheguei até a esquecer um pouquinho da dor de cabeça, mais olha só, ela voltou! Rs

3 – Chael Sonnen Vs Michael Bisping, quase como um Alien Vs Predador, ou então, Freddy Vs Jason… Dois anti-heróis, duas das piores personalidades do esporte, em uma luta que promete ser tão empolgante quanto uma competição de abrir latas de sardinha, é patético. Boa sorte ao Inglês, e por favor, coloquem o Yamazaki para arbitrar essa luta, vai que rola um no contest!

Uma resposta a S.O.P.A., P.I.P.A e o MMA

  1. Depois dá uma conferida no FC Jon Jones Brasil, o blog ainda está em fase de construção mas ta dando umas engatinhadas. Aceito conselhos para melhorias, sua coluna aqui no fanáticos por MMA ta show, abraços parceiro.

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